"Jonas se dispôs, mas para fugir da presença do SENHOR, para Társis; e, tendo descido a Jope, achou um navio que ia para Társis; pagou, pois, a sua passagem e embarcou nele, para ir com eles para Társis, para longe da presença do SENHOR" (Jn 1.3).
O livro de Jonas é único em vários aspectos. É o único cujo personagem principal se mostra em flagrante desobediência e em fuga da presença do Senhor. Também, foi eternizado na mentalidade popular do mundo ocidental pelo peculiar meio de transporte utilizado pelo Senhor para levar o profeta ao cumprimento do chamado e da vocação que o Senhor lhe havia feito.
Em visita à Bagdá em 2019 para dar um curso na igreja presbiteriana do Iraque, cidade que fica às margens no poderoso rio Tigre, com quase um quilômetro de largura naquele ponto, ao passar pela longa ponte, fiquei imaginando Jonas sendo conduzido pelo rio, no estômago do enorme peixe. Um pouco ao norte de Bagdá fica a cidade de Mosul, que corresponde à antiga Nívine.
O livro de Jonas também se distingue pelo propósito de Deus com a profecia que deveria ser entregue. Curiosamente, o objetivo do envio do profeta não foi primeiramente entregar uma mensagem aos habitantes da capital do império assírio, mas ao seu próprio povo. Não se tratava de anúncio de salvação, mas de juízo. Jonas não foi oferecer aos ninivitas a participação no Pacto, mas a possibilidade da evitação da destruição.
Dessa forma, o objetivo do Senhor ao mandar seu profeta não foi primeiramente a nação que subjugava seu povo, mas dar uma poderosa lição aos israelitas. Certamente os ninivitas não foram convertidos: a) não foram circuncidados; b) não assumiram o compromisso de guardar a Lei; c) não passaram a ir uma vez por ano a Jerusalém para sacrificar a Deus; d) não há exemplo bíblico da conversão de uma cidade inteira (mais de cento e vinte mil pessoas); e) o imperador não foi convertido e parou de perseguir o povo; f) Nínive foi destruída pouco tempo depois. Certamente, não passaram a fazer parte da Aliança. O arrependimento que os ninivitas mostraram foi meramente humano, uma espécie de remorso que tinha como objetivo a simples evitação das consequências dos seus maus atos, a destruição da cidade.
Pois bem, Deus enviou Jonas a Nínive, a capital do império Assírio, para dar uma lição ao seu povo, qual seja: que mesmo os pagãos acreditaram na palavra do seu profeta, enquanto seu povo não.
A atitude primeira de Jonas, sua recusa ao chamado e àquilo que o Senhor lhe havia dada como responsabilidade, se explica exatamente por prever que o Senhor poderia "mudar de ideia" quanto à destruição de Nínive. O profeta não queria que o Senhor usasse sua misericórdia.
A desobediência de Jonas encontrou "respaldo" nos acontecimentos, uma espécie de "Providência ao avesso", quando o pecador se vê apoiado em suas próprias intenções por situações favoráveis às suas intenções. Ao descer para o porto, Jonas encontrou um navio que ia para Társis, cidade que hoje estaria em Portugal. Na época, ter aquela cidade como destino seria o equivalente a dizer: "acabou o mundo, vire à direita". O estreito de Gibraltar era conhecido como "os portais de Hércules", a saída do Mar Mediterrâneo para o Atlântico. Naquele tempo acreditava-se que o oceano acabava em um grande abismo. A navegação se dava sempre costeira, nunca em mar aberto. Dessa forma, passando pelo estreito de Gibraltar, virava-se imediatamente à direita, costeando a Península Ibérica em direção à Nínive.
Assim, ao encontrar um navio para Társis, é possível que Jonas tenha feito uma releitura dos acontecimentos, como se o Senhor tivesse mudado de ideia quanto à sua ordem, providenciando outro caminho, mais de acordo com a vontade do homem. A contumácia da vontade humana se mostra incrivelmente robusta, na forma de um coração extremamente endurecido e embrutecido. É espantoso observar que Jonas só orou ao Senhor por socorro e alívio depois de três dias no ventre do grande peixe. Dificuldades muitas vezes têm o objetivo de quebrantar o coração, tornando-o contrito e penitente.
Cuidemos com releituras tendenciosas dos acontecimentos. Que não imponhamos nossa vontade à vontade de Deus, acreditando que ele se modelará meramente àquilo que desejamos. Não busquemos respaldo à desobediência dando contornos aos acontecimentos que beneficiem os nossos próprios propósitos. Tenhamos prazer na vontade de Deus e seus infalíveis desígnios. Tenha um excelente dia na presença do Senhor
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