A dor da mulher abandonada pelo marido, questionando sem resposta, ecoava: Sempre fui uma pessoa de fé e muito fiel. Como Deus permitiu? Eu tinha 18 anos e ouviria as mesmas dores por toda a vida. Para a minha surpresa, achei o mesmo na Bíblia: “Por que, SENHOR, me rejeitas e escondes de mim o teu rosto? Desde moço tenho sofrido e ando perto da morte” (Sl 88.14-15).
Então pensei: Deus vai ter de me explicar. Passei anos querendo entender, até porque minha vida sempre foi só dor. Não vivi com meus pais. Indo de uma casa de parente a outra, sem senso de pertencimento e identidade, o caos profundo vociferava dentro de mim. Muito cedo na vida, desejei ser ateu. Internações por desidratação, organismo frágil, abusos de todo tipo e uma solidão sem fim me sufocavam o ser, lançando-me ao nada. Aos 5 anos, cheio de ódio, quebrei uma vidraça com um soco, rasgando o braço. O desespero irado era a "prova" da ausência e inexistência do Criador. Até que ele me achou. Embaixo de uma árvore, aos 12 anos, quando fui morar no Tocantins. Todas as sequelas, dores e traumas foram invadidas pelo mel divino, e aquele abraço inexplicável me refez desde o profundo.
Como me lembro do derramar da graça sem fim ao ouvir o hino: Buscou-me com ternura Jesus, o bom pastor. Achou-me na miséria. Salvou-me com amor ... Ferido, abandonado, Jesus me socorreu; E segredou-me: “achei-te. De agora em diante és meu”. Tão meiga voz jamais ouvi. Prazer maior jamais senti.
Aquilo foi a “explicação” do inexplicável. Aos poucos, o Deus que me escolheu pra brincar de esconde-esconde foi sussurrando segredos ao menino mau, cheio de perguntas. Comecei a trocar de dúvidas. Mas, nunca tive resposta. Ah ... Deus vai ter de me explicar. Como alguém dilacerado por dentro pode ser curado no coração sem fazer nada? Por que tantas vezes a sentença de morte esteve sobre mim, e ele me poupou? Como um menino traumatizado, filho da solidão, passou a ter irmãos em cada nação? Por que traições, escândalos e loucuras nunca me tiraram a fé e o mel do coração? O Deus que não me explica e a tudo responde, me ensina e me cura brincando de esconde-esconde. “Quem sou eu, SENHOR, para chegar a esse ponto?” (2Sm 7.18).
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